Pesquisa e Edição - Luiz Sérgio Castro
Na década de 1960 — e ainda antes dela — os
estados do sul dos Estados Unidos, como o Alabama, viviam sob o peso de uma
segregação racial institucionalizada. Negros eram tratados como cidadãos de
segunda classe: não podiam votar, eram impedidos de frequentar determinados
clubes, lojas e igrejas e, no transporte público, deviam ceder seus lugares aos
brancos. A desigualdade era legal, cotidiana e humilhante.
Foi nesse contexto que, em 1º de dezembro de
1955, uma mulher negra de 42 anos transformou um gesto simples em um ato
histórico de resistência. Rosa Parks, costureira, cansada após um longo dia de
trabalho e com dores nos pés, recusou-se a ceder seu assento em um ônibus de
Montgomery a um homem branco. Sua resposta foi curta, firme e definitiva: “Não.”
Um sistema construído para humilhar
As regras eram claras e injustas. Os ônibus
possuíam duas seções: brancos à frente, negros atrás. Caso um branco ficasse em
pé, o motorista movia a placa que delimitava as áreas, obrigando passageiros
negros a se levantarem ou a irem ainda mais para o fundo do veículo. Rosa Parks
ocupava justamente um desses assentos “intermediários” quando recebeu a ordem
para se levantar.
O motorista James Blake ameaçou chamar a
polícia. Rosa respondeu com tranquilidade: “Pode fazer isso.” Pouco depois, foi presa.
O que parecia mais um episódio rotineiro de repressão racial tornava-se,
naquele instante, o estopim de uma das maiores mobilizações sociais da história
americana.
O nascimento do Movimento pelos Direitos
Civis
Ao tomarem conhecimento da prisão, líderes da
NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), entre eles
um jovem pastor de apenas 26 anos chamado Martin Luther King Jr., transformaram
o caso de Rosa Parks em símbolo da luta contra a segregação racial.
No dia seguinte, a população negra de
Montgomery iniciou um boicote ao sistema de ônibus da cidade. Durante 382 dias, trabalhadores
caminharam quilômetros, organizaram caronas e resistiram à pressão econômica e
às ameaças. O impacto foi devastador para o transporte público local, que
dependia majoritariamente dos passageiros negros.
Em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte dos
Estados Unidos declarou inconstitucional a segregação racial nos transportes
públicos. A vitória jurídica representou um marco histórico, mas não o fim da
luta.
“O caminho é longo”
Em uma das últimas entrevistas concedidas antes
de sua morte, em outubro de 2005, Rosa Parks refletiu sobre o significado de
sua atitude:
“Vivíamos uma
segregação racial legalizada e andávamos de cabeça baixa. Os brancos pensavam
que eram superiores e não houve um único dia em que eu não tenha me sentido
humilhada. Hoje, temos os mesmos direitos. Mas ainda há muita desigualdade e
injustiça. O caminho é longo.”
Rosa fez questão de afirmar que seu gesto não
foi planejado, mas também não foi fruto do acaso. Ela já militava havia anos na
NAACP e conhecia profundamente as injustiças do sistema.
“Eu não imaginava que
ficaria envolvida até o pescoço no Movimento pelos Direitos Civis, nem que meu
ato teria um impacto tão grande. Mas já ansiava e lutava por mudanças há muito
tempo”, declarou.
Resistência, perdas e esperança
O boicote teve custos pessoais elevados. Rosa
Parks perdeu o emprego e passou a sofrer constantes ameaças de morte. Em 1957,
ela e o marido se mudaram para Detroit em busca de segurança. Mesmo assim,
nunca abandonou a militância.
Até os últimos anos de vida, participou
ativamente do Instituto Rosa & Raymond Parks, dedicado à educação e à
promoção dos direitos civis entre jovens. Aos 92 anos, afirmava não se sentir
cansada:
“Tenho um amor
verdadeiro pela minha causa. Isso não me deixa cansar.”
Um legado que permanece
Questionada sobre grupos racistas como a Ku
Klux Klan e movimentos neonazistas, Rosa Parks respondeu com serenidade e
firmeza:
“Quem sente ódio está
destruindo tanto o outro quanto a si mesmo. Por isso é importante ouvir a voz
da paz.”
Sobre Martin Luther King Jr., deixou uma imagem
clara e afetiva: a de um homem forte, carismático e disposto a dar a vida por
seus ideais.
“Eu não estaria dando esta entrevista agora se
meu caminho não tivesse cruzado com o de Martin Luther King no episódio do
ônibus”, afirmou.
Rosa Parks morreu sem ver as comemorações dos
50 anos do boicote de Montgomery, mas seu gesto continua vivo na memória
coletiva. Ao dizer “não”, ela mostrou que a coragem individual pode abalar
estruturas injustas e abrir caminhos para transformações profundas.

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