Da Redação
Amor, fé e tragédia marcaram a trajetória dos
filhos do último imperador do Brasil, símbolos de uma época em que o destino da
nação se confundia com o da monarquia
Antes de carregar o peso da coroa, Dom Pedro II
foi, acima de tudo, filho. Uma criança moldada entre afetos, ausências e o peso
de um legado imenso. De sua mãe, a imperatriz Dona Leopoldina, herdou a
delicadeza, o amor pelas artes e a curiosidade científica. De Dom Pedro I,
recebeu o senso de dever e a consciência de que governar não era privilégio,
mas responsabilidade.
Mesmo separados pela distância — após a
abdicação do trono brasileiro em 1831 e o retorno de Dom Pedro I a Portugal —
pai e filho mantiveram uma relação intensa por meio de cartas. Nelas, o
imperador deposto alternava conselhos paternos e lições de estadista, como
quem, mesmo longe, ainda moldava o sucessor. Em uma dessas cartas, datada de 26
de novembro de 1831, Dom Pedro I escreveu ao filho:
“Saudades é, para mim, de um valor sem
igual. Sim, meu amado filho, eu te mereço as saudades que tens de mim. Eu te
amo muito e te desejo, a ti e à nossa pátria, todas as felicidades possíveis.”
Já adulto, Dom Pedro II preservou essa ligação
com devoção. Em viagens, buscava locais associados à memória do pai, conversava
com aqueles que o haviam conhecido e visitava com frequência o Panteão dos
Braganças, em Portugal. Esse profundo respeito pela família refletiu-se na
educação de seus próprios filhos.
Com a imperatriz Teresa Cristina, Dom Pedro II
teve quatro filhos. Apenas duas sobreviveram à infância. A seguir, o destino de
cada um deles — uma história marcada por esperança, dor e interrupções
trágicas.
Afonso Pedro: o herdeiro que partiu cedo
O nascimento de Dom Afonso Pedro, em 23 de
fevereiro de 1845, foi celebrado em todo o Império. Primeiro filho do casal
imperial, representava a continuidade da dinastia e a segurança do trono.
Festas, missas e iluminações públicas marcaram sua chegada.
Afonso cresceu saudável e alegre, mas o destino
foi implacável. Aos dois anos de idade, sofreu sucessivas crises convulsivas e
faleceu em 11 de junho de 1847. A perda mergulhou a família imperial em
profundo luto. Em carta à madrasta, Dom Pedro II revelou a dor da tragédia,
conforme registra o historiador Roderick J. Barman:
“Com a mais pungente dor, participo-lhe
que meu caro Afonsinho morreu desgraçadamente de convulsões.”
A saúde da imperatriz Teresa Cristina, então
grávida, ficou gravemente abalada.
Isabel: a Redentora que perdeu o trono
Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela
Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu em 29 de julho de 1846.
Com a morte dos irmãos, tornou-se herdeira do trono. Inteligente, profundamente
religiosa e culta, herdou do pai o gosto pelas letras, pela ciência e pela
fotografia.
Assumiu o governo do Império em três ocasiões
como regente, demonstrando firmeza e responsabilidade. Em 1864, casou-se com o
príncipe francês Gastão d’Orléans, o Conde d’Eu. Sua vida pessoal foi marcada
por perdas: dois abortos, uma filha natimorta e a morte de dois de seus três
filhos ainda jovens.
Em 1888, Isabel entrou definitivamente para a
história ao sancionar a Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil e recebendo
o título de “A Redentora”. Pouco depois, com a Proclamação da República, seguiu
para o exílio na Europa. Embora o banimento da família imperial tenha sido
revogado em 1920, Isabel nunca retornou ao Brasil. Morreu em 14 de novembro de
1921, aos 75 anos.
Leopoldina: a princesa que o destino
levou cedo demais
Nascida em 13 de julho de 1847, no Palácio de
São Cristóvão, Leopoldina Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela
Gonzaga de Bragança e Bourbon recebeu o nome da avó paterna. Criada sob rígida
disciplina intelectual, destacou-se pela cultura e dedicação aos estudos.
Em 1864, casou-se com o príncipe alemão Luís
Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, tornando-se duquesa. O acordo matrimonial previa
residência no Brasil e filhos nascidos em solo nacional. Leopoldina teve quatro
filhos, três deles brasileiros.
Em 1870, grávida do último filho, permaneceu na
Europa e contraiu febre tifoide durante um surto em Viena. A doença evoluiu
rapidamente, provocando delírios e convulsões. Leopoldina morreu em 7 de
fevereiro de 1871, aos 23 anos, deixando o imperador profundamente abalado.
Pedro Afonso: o último herdeiro
Dom Pedro Afonso nasceu em 19 de julho de 1848
e reacendeu a esperança da continuidade dinástica. Contudo, assim como o irmão
mais velho, teve vida breve. Em 1850, durante uma estadia na Fazenda Imperial
de Santa Cruz, adoeceu repentinamente e morreu aos 17 meses, vítima de
convulsões.
A dor foi devastadora. Em carta comovente, Dom
Pedro II desabafou:
“Foi o golpe mais fatal que poderia
receber (…) cada palavra é interrompida por minhas lágrimas.”
Com sua morte, extinguia-se a linha masculina
direta da sucessão, levando o imperador a preparar a princesa Isabel como
herdeira do trono.
Um legado marcado pela dor
A história dos filhos de Dom Pedro II é, ao
mesmo tempo, íntima e nacional. Entre cartas, perdas e esperanças
interrompidas, revela-se o lado humano de uma dinastia que governou o Brasil
por quase sete décadas. Mais do que herdeiros de um trono, foram personagens de
um drama familiar que se confundiu com o próprio destino do Império.
Esse Artigo é baseado em texto de Theago
Lincolins publicado originalmente na revista Aventura na História

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